O dia em que fui condenado por racismo

Antes de falar sobre o título do texto, preciso contar uma história

Sabe aquela imagem da evolução das espécies em que aparece um macaco que vai ficando de pé, evoluindo, até chegar à figura do homem (homo sapiens)?

evolucao-das-especies-lamarckismo-darwinismo-mutacionismo.jpg

Essa imagem é meramente simbólica, já que não somos uma evolução dos macacos, mas de um ancestral comum. Somos mais primos do que filhos dos macacos.

Sabe outra imagem que mostra a figura do homo sapiens “voltando” e um balãozinho na cabeça dele falando: “voltem que deu merda”?

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Pronto: essa é a ideia do “Eu quero ser um macaco” (EQS1M).

Há cerca de 200.000 anos surgiram os primeiros homo sapiens. Neste momento os nossos caminhos se separaram de nossos primos macacos.

O caminho que seguimos nos levou ao protagonismo no planeta e à criação de muitas coisas, desde o maravilhoso avião e a revolucionária internet, à mortífera bomba atômica e às execráveis guerras.

Desenvolvemos uma forma tão destrutiva de nos relacionarmos com as outras espécies e com a natureza que provocamos extinção de animais, desmatamento, poluição e toda uma série de transformações que desequilibram o meio ambiente e colocam em risco até mesmo nossa própria existência.

Neste contexto, olhando para nossos primos na escala evolutiva, que vivem de forma harmônica com a natureza, cabe o questionamento: de fato o processo que culminou no surgimento do homo sapiens foi realmente uma evolução? ou um retrocesso?

Do ponto de vista biológico, não há dúvidas que foi uma evolução, mas e no que diz respeito ao funcionamento do  ecossistema em que nos inserimos?

A ideia do “eu quero ser um macaco” é: quero voltar, simbolicamente/metaforicamente, àquela tal esquina evolutiva e seguir os passos de nossos primos, buscando uma forma de vida menos destrutiva.

Há muitos anos criei, junto com meu amigo Luiz Alberto, um blog com esse tema. Compramos domínio, fizemos identidade visual e até escrevemos um manifesto (clique aqui para ler). Desde então a figura do macaco passou a ter uma conotação especial para nós. Tenho vários macacos em casa (de pelúcia, máscaras, esculturas, desenhos…), alguns amigos até me chamam de macaco… e vira e mexe saio registrando o slogan EQS1M por aí.

Pois bem, o que tudo isso tem a ver com racismo, afinal?

No último sábado estive com minha namorada, Fernanda Brandão, no festival Coquetel Molotov, em Recife. Lá no espaço tinha uma feira e no meio desta feira um painel onde algumas pessoas trabalhando como monitores distribuíam pincéis atômicos para que os presentes registrassem uma mensagem.

Eu peguei um pincel e escrevi: “Eu quero ser um macao”

Isso mesmo, sem um “c”. Daí ficamos morrendo de rir, Nanda e eu, porque eu tinha esquecido um “c”, daí fiquei tentando consertar, encaixar a letra faltante de alguma forma. Daí depois de algumas tentativas frustradas, tentei desenhar um macaquinho, que ficou ridículo… quando percebo que tinha uma mulher atrás da gente meio que pressionando para que parássemos com aquilo, daí eu entreguei o piloto, entendendo que ela teria ficado incomodada com o fato de eu ter feito algo esteticamente desagradável. O texto ficou rabiscado e o desenho mal feito.

Demos dois passos para sairmos de perto do painel quando a vi ir em direção ao que tinha feito e riscar de forma enérgica a frase e o desenho. Pensei: “caramba, ficou mais ridículo do que eu tinha pensado. Ela ficou indignada”. Só que a expressão dela não era proporcional ao que estava acontecendo. Nem todo mundo que pegou um pincel pra fazer um registro naquele painel tinha talento pro desenho ou escreveu algo brilhante. De qualquer forma, me senti incomodado. Ora, tinha um painel com pincéis e qualquer um poderia escrever algo que tivesse pensando, sentindo ou simplesmente colocando seu nome…

Perguntei então o porquê de ela ter feito aquilo. Mas ela não quis conversa. Respondia nossos argumentos monossilabicamente e com uma cara de reprovação não compreensível para nós. Então, nos afastamos.

Foi então que algumas pessoas se aproximaram dela e perguntaram o porquê de ela ter feito o que fez e daí ela começou a apontar pro escrito (e riscado) e pra gente. Foi quando nos demos conta, a partir dos olhares de reprovação de que ela tinha se sentido vítima de preconceito racial.

Uma mulher negra que nós sequer tinhamos visto quando estávamos no painel se sentiu agredida por eu ter escrito “eu quero ser um macaco”.

Nanda falou: caramba Renan, eles estão achando que fomos racistas. Mostre seu blog pra eles. Explique que não tem nada a ver…

Daí abri o site www.euqueroserummacaco.com no celular e fui mostrar pra eles que não tinha nada a ver com o que ela estava pensando, que era um site, um projeto, uma ideia que mescla filosofia, antropologia, poesia e um pouco de besteirol, mas mais uma vez ela não quis conversa. Virou as costas e saiu, nos deixando falando sozinhos.

Então fui em direção aos outros dois que estavam com ela e expliquei a situação, mostrei o site… eles demonstraram inicialmente não quererem conversa também. “Cara, vai na boa, não precisa justificar nada”. Daí falei que não era uma questão de justificar, mas de mostrar que houve um mal entendido e que queria elucidá-lo. Por fim, não sei se entenderam ou se não quiseram prolongar o episódio, argumentaram que não nos preocupássemos, que ela tinha “viajado”, que não tinhamos feito nada de errado…

Saímos com a alma ferida, de verdade. Certamente ela também.

Não há como explicar com palavras o ocorrido sem ser superficial, sem deixar escapar detalhes. É impossível registrar exatamente o que passou em nossas cabeças. Porém não podia deixar de fazer este registro…

O fato é que, pelo menos por alguns minutos, fomos (na cabeça de algumas pessoas) racistas repugnáveis que em pleno século XXI ainda sustentam a estupidez do preconceito. Fomos acusados, julgados e condenados em questão de segundos, sem direito à defesa. Uma situação muito chata e desgastante que consumiu boa parte da energia que tínhamos pro festival. A partir dali nossa noite não foi mais o que poderia ter sido.

O mais triste é que certamente a da mulher que se sentiu agredida também não. Assim como nós passamos a noite quase toda com aquilo na cabeça, ela também deve ter passado. Possivelmente de forma mais intensa que nós. Afinal a sua reação demonstra que ela deve ter sido vítima de preconceito outras vezes. Uma pena ela não ter nos dado a oportunidade de mostrar que às vezes nosso olhos nos enganam. Talvez ela mesma teria pegado o pincel e escrito, com mais talento que eu: “eu quero ser um macaco”.

Fomos, todos nós, neste episódio, vítimas de uma carga cultural construída por uma sociedade fragmentada, preconceituosa e destrutiva.

O preconceito mata. Precisa ser combatido, mas o primeiro preconceituoso que temos que combater é aquele que mora dentro de nós.

É por essas e outras que, mais do que nunca: eu quero ser um macaco.

 

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Incompleto

Há algo de ausente no que vejo
Desembaço a vista,
Esfrego a memória…
Mas nada vem à tona
E sinto medo
O incompleto me namora

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São Pedro

Esta manhã

São Pedro despertou invocado

E fez despencar um mundaréu de água

Jamais visto, sobre os telhados

E daí sobre nossas cabeças

Nasceram rios em tudo que é buraco

Cachoeiras se puseram de pé

E mergulharam em outros rios que viriam a nascer

Não sobrou um pé de pau intacto

Uma casa, um tijolo empilhado

Depois evaporou-se a enxurrada

E São Pedro ao ver a bagaceira

Sentou-se

E morreu de chorar

E aí, meu amigo,

Fudeu foi tudo!

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Abstrato

Havia um buraco no concreto da parede

Do outro lado,

Só se via o abstrato…

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Quanto tempo faz?

Quanto tempo faz desde o nosso ultimo abraço?

Como se dissipou o calor que me abraçava mais que teus braços?

Onde se esconde teu desenho em meu peito tatuado?

Quanto tempo faz?

 

Eu conto os passos que nos separam e não paro

Até que teus olhos me encarem de repente

E me digam assim, simplesmente

Que a angústia da espera 

 

É passado…

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5 sentidos e nada

O som

[De ecos adormecidos

De gritos dilacerados]

A luz

[Amarelada, de dias perdidos

Num horizonte pintado]

O cheiro

[Intenso, impreciso

Suave, quase imaginado]

O gosto

[Da fruta mordida

De beijos apaixonados]

O toque

[que quase não toca

O toque desesperado]

 

Nada disso era suficiente para fazê-la sentir

O tempo, o espaço

 

Esvaindo-se da matéria

Imaginava

Algo que só existe em um universo

Por ela criado

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Coração alado

Avistei ao longe um coração alado

Reticente, ao norte

[Camuflado]

Senhor de si, imponente

Levava em suas garras austeras

A lembrança iminente

de todos os homens

Que viveram sobre a terra

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Sonho

O olhar do poeta

Abre janelas

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Ela vivia a vida como quem alisa um gato,

mas passava noites em claro, sonhando…

com a volúpia alucinante de quem trepa

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Descobre-te

Recolhe-te a teu casulo

Retira-te à tua toca

Cobre-te a cabeça com teu casco

Fecha tuas pétalas de rosa

Nega-te os carinhos do beija-flor

Esconda-te onde ninguém mais possa ver-te

Espera que passe o tempo

Mas não espere que ele faça o mesmo

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