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Prisões ou narcossalas?

4 jul

Enquanto milhares de famílias brasileiras sofrem com o fenômeno do aumento substancial do consumo do crack, que possui características epidemiológicas, o poder público permanece inerte, acorrentado a um pernicioso emaranhado de burocracia e moralismo. As poucas atitudes tomadas até o momento ou vão na contramão de experiências que lograram êxito, ou são insuportavelmente tímidas.

A política ainda é de punir os usuários encarcerando-os em prisões ou em centros despreparados para tratá-los, quando não em hospitais psiquiátricos que não existem para cumprir a função de tratar dependentes químicos.

As narcossalas (espaços destinados ao consumo de drogas e de apoio ao usuário) ao contrário do que muita gente pensa, não é um espaço para incentivar os usuários de drogas a seguirem com o vício, mas sim para reconhecer que a pretensão de se imaginar uma sociedade sem consumo de drogas é ilusória e que se deve encarar o problema com maturidade e respeito aos dependentes e às suas famílias.

No Insite, por exemplo, o governo canadense oferece todo o material necessário para o consumo de heroína, como seringas e agulhas descartáveis e disponibilizam enfermeiras para acompanhar os frequentadores, mas não só isso. Lá também estão presentes psicólogos e assistentes sociais que conversam e oferecem suporte àqueles que anseiam por deixar o vício. Há muito mais salas para o tratamento destas pessoas do que para o consumo de heroína. Com este projeto conseguiu-se reduzir significativamente o número de infecções de doenças por compartilhamento de seringas, mortes por overdose e ainda aumentou-se o número de pessoas deixando as drogas.

Não é preciso reinventar a roda para resolver o problema. Basta reconhecer que ele existe e aprender com experiências que já deram certo.

O tema é de interesse público. Quem quiser se aprofundar mais eu recomendo a matéria da Carta Capital de 3 de julho e um documentário sobre o Insite, no Canadá.

obs.

Não quero dizer que as narcossalas são a solução para o problema das drogas, mas sim que ela é uma ferramenta que pode, comprovadamente, ajudar. Ou seja, há formas mais inteligentes para lidar com o problema do que encarcerar os dependentes químicos tratando-os como criminosos ou portadores de problemas psiquiátricos.

Vídeo sobre a proibição das drogas

12 jun

Recomendo o documentário Cortina de Fumaça, dirigido por Rodrigo Macniven, de 2010, que trata da criminalização de substancias psicoativas e de suas consequências, abordando a questão das desigualdades sociais e políticas públicas.

Muito interessante.

 

E quando iremos entender…?

28 abr

O ser humano parece ter uma tendência inerente a hierarquizar as relações sociais. Seguindo esta tendência, o mundo foi dividido em vários mundos. Cada um em seu posto sobre um pódio virtual, onde os primeiros ganham e os últimos perdem. Assim, surgiram as definições de primeiro, segundo, terceiro e quarto mundos. Etiquetas superficiais que definem quem tem mais ou menos direitos aos recursos do planeta.

De fato, há uma desigualdade significativa em termos de acesso a bens, serviços e oportunidades, se compararmos a realidade de dois países que se encontram em posições opostas no ranking do desenvolvimento, considerando aspectos como educação, renda e saúde. No entanto, foi-se criando ao longo dos anos um universo de conto de fadas em torno destas discrepâncias, de tal forma que a maioria das pessoas, me atrevo a dizê-lo, acredita que nos países chamados de primeiro mundo goza-se de uma vida deslumbrante onde direitos e deveres são respeitados e cumpridos em sua plenitude, vislumbrando um espaço livre da corrupção, violência e desigualdades sociais. Males, lamentavelmente, tão arraigados à estrutura social humana.

Obviamente, este universo não passa de mera fantasia, de certa forma justificável, é preciso admitir. A mídia exerce uma influência capital nesta cegueira social, que inclui a ausência de conscientização de que as desigualdades existentes entre os países devem-se a uma estrutura de exploração econômica, simbolizada por relações de colonização levadas a cabo há séculos. A despeito das diferenças naturais que surgem de espaços configurados por culturas, história e oportunidades distintas, estamos todos em um mesmo barco, navegando para algum lugar cujo nome e localização desconhecemos.

Esta visão fantasiosa contribui para que milhões de imigrantes, ano após ano, choquem a cara contra um muro de desilusões ao se lançarem à aventura de buscar melhores condições de vida em outros países. Alimenta um complexo de inferioridade crônico que faz brilhar os olhos do consumidor teceiromundista diante de um produto importado. Cria distancias ilusórias entre povos que compartilham o mesmo berço e se diferenciam pela cor da pele ou o tipo do cabelo.

No primeiro mundo há muita gente bonita, é verdade, educada, gentil, mas também tem muita gente feia, mal vestida, sem higiene… As pessoas têm cachorros e os levam a todos os lugares, ao trem, à universidade, à discoteca (de cães) e a raves (de gente). Os primeiromundistas, pasmem, também peidam! Também xingam, falam asneiras, ignorâncias. Tem seus medos, angústias, tristezas… Eles também morrem… E muitos aparecem nos jornais depois disso, em notícias policiais que também espetacularizam a morte.

Há pessoas morando nas ruas, pedindo dinheiro… As pessoas usam drogas, fazem sexo… Formam-se e não conseguem emprego, conseguem emprego e não são felizes, compram o carro mais bonito e mais moderno e passam o resto da vida devendo a absurda prestação do apartamento minúsculo. Muitos vivem na Europa a uma distância de outros países menor do que a que os brasileiros vivem de suas cidades vizinhas. E, mesmo assim, muitos deles não conhecem outros países, outras culturas…

Sabem pouco sobre o “resto do mundo”, principalmente os nativos de países de língua inglesa que, em geral, não dominam outro idioma além do inglês, afinal “o mundo fala inglês” (?). As pessoas riem, choram, trepam, se apaixonam… Matam, morrem… Tem duas pernas, dois pés, uma cabeça e uma boca…

Assim como todas as outras…

O ser humano, meus caros, é um só.

Só que, infelizmente, ainda não entendeu isso…

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