O som dos primeiros tiros não foi o suficiente para nos despertar naquela fria noite de maio. Somente quando uma bala atravessou a janela da cozinha e rompeu o vaso de flores preferido de minha mãe, soubemos que o abrigo construído por meu pai, a três horas de caminhada de nossa casa, teria que ser usado.
Com apenas dois anos de idade e poucas lembranças colecionadas, eu não tinha nenhuma noção do problema que enfrentávamos com a guerra civil espanhola. No entanto, depois de passar muitos anos, escutando as recordações de minha mãe, narradas de forma tão viva e detalhada, tenho cada um desses momentos guardados em minha memória de uma maneira inapagável.
O abrigo era um buraco cavado no chão, coberto por vegetação e areia, onde cabiam nada mais que meus pais, meus irmãos e eu, o menor de todos.
Cada passo dado sobre o terreno movia o solo e despejava um pouco de terra sobre nossas cabeças. Então meu pai, o maior de meus incentivadores, tirou uma peça de sua roupa para cobrir-me.
Até hoje posso sentir o cheiro…